sábado, 13 de agosto de 2011

Exercícios de Cutelaria

Escrever como quem manipula seringas e gillettes e facas afiadas e tira de um corpo todo o excesso de pêlos e sangue e gordura e gritos exagerados por motivos banais até sobrar o grito exato para a dor exata e a pele bem costurada sobre o ossuário e as cicatrizes e a estirada trama de fibras que o sustentam. Depois pegar toda a sobra e embutir em lugares invisíveis desse mesmo corpo para o excesso nutri-lo enquanto ele tenta se pôr sobre as pernas como um potro recém nascido ou um filhote de centauro ou qualquer outro ser deste ou estranho a este mundo que venha a surgir no final do processo. Escrever como um fabricante de anjinhos que se utiliza de espéculos e bisturis e dedos acostumados a vácuos e cervicais dilatadas para no fim da sangria forjar uma ausência ou o rascunho de um golem ou um quase-corpo que só se completa pela renitente memória do que poderia ter sido ou das coisas interrompidas quando tinham de ser.



3 comentários:

paula disse...

Gosto.

Adriana Brunstein disse...

Bem, vou ter que roubar de novo (e para isso tive que digitar "bidicruf" no verificador de palavras)

Nilo Oliveira disse...

Fiquem à vontade... Tá um verdadeiro Jardim do Édi este brógui. Abraços.