sábado, 19 de dezembro de 2009



Mirisola


- Gostou desse livro? Fui eu que fiz!

A figura demente, alucinada. Eu saindo do banheiro, com o livro debaixo do braço: quando o João falou que ia comprá-lo, desaconselhei:

- Porra, João, desses caras novos, tem muito pouca coisa que preste.

- Acho que este é bom. O próprio escritor me vendeu.

- Ele tá aqui, é? Como é que ele é?

- Gente boa. Meio maluco.

Um congresso reichiano, na praia dos Ingleses, em 1997. Num "hotel jeca de frente para o mar" - o escritor havia montado seu estande. Pelas paredes, recortes de jornais elogiando o livro: Aldir Blanc, Reinaldo Moraes, Marcelo Coelho - todos dizendo tratar-se de uma grande estréia. Mas não chegaram a me convencer. Até que a cervejada da noite anterior me obrigou a visitar, urgentemente, o Water Close:

- Empresta o livro, João. Preciso me inspirar.

Abri, como sempre faço, no conto que dava título ao livro, que começa assim: "Conheci Maria de Fátima. Descasada, mãe do gordinho de doze anos, quando se tem doze anos, as mães chamam-se Maria de Fátima. Os filhos têm doze anos e são gordinhos. É por aí que as coisas acontecem. Eu ficava no quarto dos meninos. Beliches Lembram Pastéis Fritos Em Óleo Vagabundo" - e a coisa prosseguia na base do "Dancing Days" e das "camisas Hang-Ten", "Paulo César Peréio era o tipo que fazia a festa. Os anos setenta foram uma merda" - minha geração desgraçada finalmente traduzida em literatura. E que literatura...

Só consegui desovar os petiscos e a cerveja da noite anterior depois de ler o conto. O João entrou no banheiro e gritou pra dentro do reservado: "E aí? Que tal o livro?"

- Caralho, Joãosinho... O cara é bom!

- É? E tu tá podre!

Na saída, conheci o escritor ("Gostou desse livro?"). O nome da obra era "Fátima Fez os Pés Para Mostrar na Choperia" - e, naquela tarde, eu, João e Mirisola, num barzinho na beira da praia, derrubamos um engradado e meio de cervejas.

O papo seguiu noite à dentro. Nunca mais vi o Mirisola beber daquele jeito. Também nunca tinha visto um sujeito mentir tanto e de forma tão divertida. A partir daí, nos tornamos grandes amigos. Ele estava há três meses isolado na sua casa do Santinho, em cima de um morro de difícil acesso, sem rádio nem televisão. Não havia diferença entre o que eu acabara de ler e o cara sentado a minha frente. Alucinado, falando aos berros, numa voz esganiçada: "De vez em quando dá vontade de puxar Deus pelos cabelos do cu, espetar o dedo no nariz dele e perguntar: qual é a tua?" - literatura de altíssima qualidade, em estado bruto, de camisa pólo, bermuda de tenista e chinelões Rider tala-larga.

Na época eu tinha várias prevenções contra os chamados "círculos literários". Só conhecia - mais pela mídia do que pessoalmente - dois tipos de escritores: os herdeiros dos Irmãos Campos (ou Masturbadores do Vernáculo) e os perseguidores do Bukowski (ou Beats Candangos). Não me sentia muito a vontade em relação a nenhum dos dois grupos.

Os primeiros pelo óbvio excesso de simióticas, latinismos e rodapés. Os outros, pela forçada "cara de mau", a tal da "cultura pop" utilizada como griffe pra justificar descaradas picaretagens, a mania pré-adolescente de sair no braço por qualquer merda - as drogas, o álcool e as noites sem rumo como uma tentativa anacrônica e ilusória de adquirirem alguma espécie de talento, via detonação do próprio fígado. Como diria o Nei Lisboa, todos eles - semióticos e adictos - querendo parecer sinceros demais.

Ali na minha frente, portanto, em plena praia dos Ingleses, estava um escritor talentoso - mas sem os achaques e frescuras que eu achava sempre acompanharem os supostos talentos. (Depois, já meio que enfronhado nos tais "círculos", acabei fazendo grandes amigos. Mas uma coisa acabou se confirmando: quanto mais afetado o sujeito, quanto mais faz questão de ostentar erudições ou franzir a carranca "maldita", menos talento ele tem.)

Foram quatro anos de convivência quase diária. Que fez um bem danado pra mim e pro livro que eu estava escrevendo. Putas de jornal, ruazinhas do centro antigo de Floripa - o "Vitória Bar", na esquina da Conselheiro Mafra com a Padre Roma - paletas de ovelha ocasionalmente fumegando na churrasqueira do Santinho e grandes porres de vinho vagabundo. Muitas histórias: um sonho em comum com o Vinícius de Moraes que, por várias razões, me abstenho de relatar por aqui - principalmente porque, segundo um dos mais valiosos conselhos do Mirisola "escritor que é escritor não dá colher de chá pro inconsciente nem pro sobrenatural."

Quando, algumas semanas após nos conhecermos, li os originais do seu segundo livro - uma novela chamada "Teresa Para Amanhã" - e disse que não fazia jus ao "Fátima", o Mirisola deu um berro, passou a mão no calhamaço de folhas batidas a máquina (duras de "Errorex") e azulou, resmungando pra si mesmo um rosário de blasfêmias e palavrões. Reapareceu três dias depois, com grandes olheiras, dizendo que passara o fim de semana à base da salsicha e do Miojo - e me entregou outro calhamaço com as mesmas características.

Tratava-se, desta vez, de um volume de contos. Chamava-se "O Herói Devolvido" - e, como se diz por aí, o resto é história.

Coragem e talento são coisas que ninguém ensina, e nem se pode aprender de uma hora pra outra. Mas, pelo menos no que se refere ao vício da escrita - pra que não descambe na banalidade da loucura, no impulso suicida ou no alcoolismo puro e simples - precisam ser de alguma forma moldados, canalizados, pra que encontrem algum tipo de norte (quem se mete a escrever, tem que primeiro inventar para si uma espécie demente de bússola - do tipo em que os nortes possam ser cambiados segundo as variações do humor ou da necessidade. O que importa é a originalidade do instrumento - além, é claro, da destreza de quem o maneja.)

Mais que a literatura inerente, essa longa e fraterna convivência foi fundamental pra que eu encontrasse aquilo que alguns chamam de "voz" - uma "postura", uma certa maneira de traduzir e se relacionar com as próprias "inhacas" e com as "inhacas" do mundo, a qual o próprio Mirisola denominou, no prefácio do meu livro, de "Ética do Foda-se". Uma rara e imprescindível lição de estilo.

Como já disse, as histórias são muitas. E cada uma delas, sozinha, daria um post.

Tudo isto pra dizer que este meu irmão paulistano está com um novo livro de contos na praça. Chama-se "Memórias da Sauna Finlandesa" e pode ser adquirido pelo site da Editora 34. Li as primeiras versões e garanto que vale a pena. Assim como todos os outros.



* A foto no início do post é do meu amigo e poeta nipo-franco-paulistano Pierre Masato, via Obturador.

12 comentários:

Nina disse...

nossa! eu acho que conheço essa história... haha, grande Marcelo! o meu escritor predileto! já pedi o livro na 34.

Anônimo disse...

Porra, seu viado!
Por que não escreveu esse texto há uns quinze dias?
Eu usaria de prefácio, ou pósfacio.
O livro ainda tem o "Mesa 5" que consegui incluir no último minuto. Também deu uma ajeitada no Gorilas de Sumatra. E´.O livro tá foda mesmo.
Obrigado pela propaganda. Um abraço, feliz natal feliz 2010 pra você, pra dona Nice ( esse ano não vou comer sarrabulho...) e pra todos aí.
Valeu,
Abração,
MM

Anônimo disse...

Ah, é claro: tudo aconteceu por causa do Joaosinho, o único sobrenatural que eu confio.Nele e na Cuca.
Abraço,
MM

Nilo Oliveira disse...

Olha aí, Mirisola: temos uma leitora em comum. E com o perdão da redundância, de muito bom gosto. Abraço, Nina.

Vê se me manda o livro de presente de natal, seu bosta. Darei os abraços e comerei, por ti, o quinto prato de sarrabulho.

Grande abraço, meu velho. Sempre agradeço o nosso Sobrenatural de Mello por esta parceria. Feliz Natal e muitas cabritas pra 2010.

Slain disse...

estou para encomendar o livro também.
ótima propaganda, haha.
(e porra, que capa bonita é essa dos livros do mirisola da editora 34)

Nilo Oliveira disse...

A gente faz o que pode pra promover os amigos. Principalmente os iniciantes... Abraço.

Nina disse...

pois é Nilo, na verdade o Marcelo me apresentou sua literatura. Quem bom prá mim, né? Abraço

Nilo Oliveira disse...

Legal, Nina. Somos todos pessoas de bom gosto. Abraço.

Lalo Arias disse...

Fazer o quê? Passar o natal lendo o novo livro do Mirisola? Feliz natal pra todos nós.
Outra coisa: a foto lá em cima é de vocês dois em frente ao Sebo? Bons tempos aqueles de mesinhas nas calçadas da praça.
Abraço

Nilo Oliveira disse...

Um bom jeito de passar o Natal. Na foto, somos eu e o Mirisola no Sebo do Bac. Realmente, bons tempos... Abraço, Lalo. Feliz natal e um próspero ano novo.

Muryel De Zoppa disse...

pedimos!

Nilo Oliveira disse...

10% pro marketeiro aqui. Abraço.