Quer rir?
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

- Nossa! Você só fala em putas! - ela disse, entre divertida e assustada. - Minha família vai pegar no meu pé...
Respondi que um homem não pode fugir da sua vocação (pornografia quer dizer, etimologicamente, "histórias de putas") - e que agora, "casado, fútil, cotidiano e tributável", só me resta, neste e em outros assuntos, substituir a imaginação pelo ato.
Considero "lupanar", por exemplo, uma das palavras mais bonitas da nossa língua. O "luar", o lobo ("lupus") e seu uivo torturado - além, é claro, da "lubricidade" inerente - tudo isso bebido assim, num só gole.
O Jim Morrison dizia que "em todos os poemas há lobos, exceto um. O mais belo de todos." Nunca entendi muito bem o que ele quis dizer com isso. Mas, por via das dúvidas, vou discordar do vocalista do The Doors.
Não apenas todos os poemas, mas todas as palavras trazem dentro de si uma primitiva - uma mitológica alcatéia de rosnados, luares, uivos noturnos e gosto de carne crua - e é justamente isso o que mais contribui para torná-las tão belas.
Pesquisando este oráculo moderno - vulgarmente denominado Google - vejam o que descobri sobre a origem do termo "lupanar" (como muito do que se encontra na rede, se não for vero, é muito bem trovatto):
"No mês de fevereiro, realizavam-se cerimônias de purificação, como sacrifícios expiatórios e os ritos de purificação chamados 'lupercálias'. As lupercálias eram festas em homenagem a Pã, realizadas no dia 15 de fevereiro, em que jovens saíam nus da gruta Lupercália flagelando os transeuntes com um cinto de pele de cabra chamado também lupercal, considerado capaz de eliminar a esterilidade e provocar partos felizes.
O nome 'Luperca' designa a loba que amamentou os gêmeos Rômulo e Remo na gruta chamada Lupercal. Na realidade, 'lupus', lobo, em latim, primitivamente, não tinha feminino. A loba-animal era 'lupus femina'. 'Lupa' designava a cortesã, daí o nome 'lupanar' para designar o prostíbulo. A 'lupa' que amamentou os gêmeos era, na verdade, uma cortesã chamada Aca Laurentia ou Laurentina. Os sacerdotes romanos é que 'purificaram' a origem de Roma, atribuindo à loba-animal a amamentação dos gêmeos que fundaram a cidade."
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Sem tempo de escrever por aqui. Nas últimas duas semanas me casei, mudei de apartamento e fui a Porto Alegre visitar minha vó, que acabou de sair da UTI.
Voltar a Porto Alegre foi como procurar, num rosto desmanchado pelo tempo, os traços de um amigo ou de um amor que eu não via desde a adolescência. A mesma dificuldade de vincular a familiaridade do nome aos novos e estranhos desenhos daqueles escombros. As mesmas idas e vindas pela calçada até me convencer que aquele prédio horroroso ou aquele hipermercado é mesmo a casa e a vizinhança onde passei a maior parte da infância.
O mesmo aperto no peito ao me dar conta de que o tempo todo ele - ou ela - devia estar pensando a mesma coisa de mim.
Quanto ao casamento, deixo aqui uma definição que ouvi num filme, do qual não lembro o título nem o enredo - mas um dos atores principais tenho certeza que era o Denis Quaid.
Um amigo mais jovem - com ar de quem consulta um sábio guru - pergunta pra ele qual é a fórmula pra passar tanto tempo casado com a mesma mulher. Eis a resposta:
- A gente escolhe alguém pra dividir a trincheira. E, quando estiver fora dela, procura manter o pau dentro das calças.
Acho que é por aí.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Fernando Pessoa: Se Te Queres Matar
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Bukowski: DEFININDO A MAGIA*

um bom poema é como uma cerveja gelada
quando você está mais a fim,
um bom poema é um sanduíche de presunto, quando você está
faminto,
um bom poema é uma arma quando
os bandidos te cercam,
um bom poema é algo que
te permite andar pelas ruas
da morte,
um bom poema pode fazer a morte
derreter feito manteiga,
um bom poema pode enquadrar a agonia e
pendurá-la na parede,
um bom poema pode fazer seu pé tocar
a China,
um bom poema pode fazer você cumprimentar
Mozart,
um bom poema permite você competir
com o diabo
e ganhar,
um bom poema pode quase tudo,
isso sem dizer que
um bom poema sabe quando
parar.
sábado, 19 de dezembro de 2009

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Poema de Natal
Triste por não acreditar em heróis.
Triste pela convicção de que tudo termina
Com a morte.
Toda convicção traz em si um pouco de morte
Por excluir um mundo de alentadoras certezas
Assim que se estabelece.
Seguir sempre em frente
É a única coisa certa.
Seguir sempre em frente
É o mesmo que matar
Várias coisas insubstituíveis
Pelo caminho
Mais o aprendizado de chorar
Cada vez menos
Por cada uma delas.
Seguir sempre em frente é deixar
Um pouco de si mesmo
Pelo caminho.
Não se pode voltar
E recolher os cacos.
Antes a irremediável tristeza
Que a potência emprestada.
Alma é um troço que se adquire aos tropeços
E nunca é completa.
Amizade e Amor
São nomes que atribuímos
Aos cacos alheios
Que por alentadores momentos nos enganam
Com a ilusão da plenitude
Mais a triste convicção de sabe-los
(Como tudo mais)
Provisórios.