terça-feira, 5 de janeiro de 2010



A Profanação Consentida


Um sentimento que alguns chamam de "fenômeno" ou "comunicação" estética, mas que prefiro chamar de "cagaço": é quando, de repente, se percebe que as palavras vão além do que está escrito na página, ou que as tintas dispostas numa tela se abrem pra um mundo de significados ocultos ou inusitados. Não estou, de maneira nenhuma, falando de alegorias - mas daquilo que os grandes artistas deixam, de propósito, apenas insinuado, esboçado na obra, e que só se completa pela inteligência (ou "sensibilidade") do espectador.

Como todos os textos alheios que transcrevo por aqui, este do Fernando Pessoa foi um dos que me ensinaram a "ver", a sentir, como num súbito e inesperado gole, as tortuosas paisagens e as galerias escondidas - nem sempre de modo premeditado - pelas pequenas frestas da aparência. Porque a arte (ou cumplicidade) de curtir um bom "cagaço" é um troço que se aprende - e tanto melhor é este aprendizado quanto mais dissimuladas forem as intenções pedagógicas por parte daqueles que de vez em quando são chamados de mestres.

Num primeiro olhar, trata-se de um convite ao suicídio. Mas, nas entrelinhas deste texto do Pessoa, o que se lê é uma exaltação individualista e desencantada da vida - que encontra eco em Camus, quando ele conjectura, em "O Mito de Sísifo", que as pessoas se matam pelas razões idênticas que as impelem a continuar vivendo.

Eu tinha uns treze ou quatorze anos quando achei, nas gôndolas de um supermercado, uma coletânea deste poeta, do qual na época conhecia apenas o nome. Abri numa página qualquer - e não sei por quanto tempo fiquei ali, parado, lendo e relendo o poema.

Não tinha dinheiro o suficiente; sem pensar, enfiei o livro na parte da frente das calças e cobri com a camiseta. O frio na barriga que senti durante todo o trajeto - até passar pelos caixas, cruzar a porta e finalmente me ver livre do olhar dos seguranças - é bem semelhante a expressão fisiológica mais comum disto que, no campo da estética, resolvi chamar de "cagaço": uma súbita apropriação, de imprevisíveis conseqüências, acompanhada pelo sentimento clandestino - e quase ia dizendo profano - de pegar carona na alma de alguém.


Fernando Pessoa: Se Te Queres Matar



Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...


7 comentários:

Lalo Arias disse...

Catso, Nilo, eu tentando nomear lá no meu blogue essa coisa toda do desencanto da existência (só que beirando o mar, de olhos fechados) e você me vem com este post... Assim não vale.
Abraço

Nilo Oliveira disse...

O portuga é foda. Abraço.

Anônimo disse...

grande Nilo, essa beleza é um contraponto a poesia atual que supõe escrever versos prescindindo de inteligência. Assim não dá. Assim não pode.Puta poesia necessária à vida ou a morte , tanto faz. Abraços, Breno

Nilo Oliveira disse...

Não posso falar da poesia atual porque a desconheço, Breno. Não por falta de curiosidade, mas por uma espécie (meio vergonhosa, reconheço) de comodismo: sempre acabo voltando aos mesmos poetas. Abraço.

Nina disse...

esse cara é bão, né não?
"De que te serve o teu mundo interior que desconheces?"... perfeito.

Tenho lido bastante Pessoa nos metros de SP, os poemas estão estampadaos nas paredes com letras enormes...

Muryel De Zoppa disse...

anônimo apontou bem o fio do disparate: nos novos poeteiros faltam olhos que mentem, bem, umbrais. o enfrentamento se dá (lá) mais (ui!) pelo léxico em contraposição ao tropo, à mensagem que não carece (Peeesssoooaaaaa!!!) de invencionices rasteiras e/ou "elementos aprioristicamente estéticos" - balela, frivolices, totens mais vazios que semente que não rasga chão... Nilão, reli o poema antes de findar na sua referência a Camus e, pasmem, me veio a mesma impressão da "didática" acerca do homem absurdo: a constatação do eterno e tal e mais alguma coisa e... fui! boa escolha, xará. abração de cá.

Nilo Oliveira disse...

Quando li o "Sísifo", imediatamente me veio à cabeça este poema do Pessoa. Abraço.