segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Bip-Bip: Grêmio X Flamengo em Copacabana

A balzaca de camisa rubro-negra, de mangas cavadas – barriguinha de chope e alça do sutiã espiando pelo ombro – espeta o dedo na cara da outra e berra:

- Cê é vaxcaína que eu sei, sua filha da puta! Aí, ó: não consegue nem segurar o riso.... Mas cês não vão subir nem por um caralho, tá ouvindo? Nem por um caralho!

- Por um caralho cê sabe é que eu não subo em lugar nenhum mermo – responde a outra, confirmando o que a camisa social de mangas curtas, o cabelo escovinha e os quadris estrangulados pela cintura da calça já sugeriam.

Em Copacabana, rumo ao Bip-Bip. Um bar que desde a sua fundação, há mais de quarenta anos, é freqüentado pela nata do samba: o tipo de lugar que, mesmo sem conhecê-lo, já fazia parte da minha nostalgia. Como a própria cidade do Rio de Janeiro, diga-se de passagem.

Uma das poucas coisas que me atraem no futebol é o clima de desgraça iminente dos estádios em jogos de decisão. Quase cinco da tarde. Os termômetros não baixam dos trinta graus. Saída da praia: rumo ao subúrbio, a cachorrada batuca na lataria dos ônibus, entoando ameaçadores gritos de guerra, tipo baile funk. Nas filas, todos os olhos parados no futebol, sucessivamente transmitido por cada aparelho de televisão nos inúmeros botecos que se estendem pela Nossa Senhora de Copacabana. Escolho o bar onde percebo a maior concentração de flamenguistas, me abanco numa mesa de canto, perto da saída, e peço uma cerveja.

Grêmio 3, Flamengo 1. No Estádio Olímpico a torcida grita olé.

- Nem por um caralho, tá ouvindo? Cês vão é mofar na segundona!

A coroa berra, possuída. Num gesto tranquilo, a sapata ergue a manga e exibe a cruz-maltina tatuada. O Fluminense e o Vasco também estão se fudendo. Os cariocas – que normalmente já se comunicam aos gritos – guincham e se descabelam, como se estivessem parindo um filho do tamanho do Adriano com a cintura e os dentes do Ronaldinho.

... e o juiz apita mais um pênalti a favor do Grêmio Futebol Porto-Alegrense.

A balzaca rubro-negra vai pra frente da TV com os olhos cheios d´água. A Nossa Senhora de Copacabana inteira imersa num silêncio engasgado, o mesmo que acontece entre a freada e a batida.

Meus olhos cruzam com o olhar vascaíno da sapata, num aceno de cumplicidade: se por acaso estourar um sururu, já tenho uma companheira pra defender minha retaguarda.

A bola quase fura o centro da rede. Ajoelhado, o goleiro do Flamengo ostenta no rosto uma expresão dolorida. O Olímpico vem a baixo.

E eu me ergo da cadeira num grito de gol.

*
Chego vivo ao Bip-Bip. O bar do tamanho de uma garagem. Pelas paredes, fotos onde se vê Roberto Ribeiro e João Nogueira abraçados, Cartola, Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho, o Aldir Blanc de camisa do Vasco ao lado do Chico Buarque tocando tamborim. Tudo naquela mesma mesa onde os músicos agora afinam os instrumentos – e onde, daqui a pouco, tocarão sambas novos e antigos com a displicência e a alegria de quem joga uma pelada na beira da praia com a parceria.
Como se levam a sério (e na maioria das vezes sem motivo) os músicos da província...

A calçada em frente ao bar já lotada. Lá dentro, sentados, apenas os músicos. Quem quiser cantar chega e canta. O próprio freguês se serve de cerveja no freezer.

Quando ouço alguém falar bem atrás de mim:

- Olha o gremixta aí, ó.

Um negão de um metro e noventa, com a camisa do Flamengo pendurada no ombro. O mesmo que retesou os bíceps, me olhou de canto e balançou afirmativamente a cabeça quando gritei gol. Ao lado dele, de mãos dadas, a sapata e a balzaca.

Com uma expressão divertida no rosto - tu recusarias? - ele me oferece um gole da sua cerveja.


7 comentários:

Lalo Arias disse...

Basta vagar sem preocupações, que o Rio sempre dá Samba e Letra.
Abraço

Nilo Oliveira disse...

É foda. Eu mesmo estou quase me tornando um personagem fictício. Abraço.

Magrisso disse...

Deve estar sendo brabo passar dez dias no Rio, perambulando por Copacabada, sempre de costas pro mar.

Nilo Oliveira disse...

Eu moro numa ilha, mérmão. O negócio é fingir que ele não está ali. O que incomoda não é o mar em si, mas a surfistada, os velhos bufando a artéria entupida, o tigelão de açaí com granola... À noite, visto de uma mesa de bar (da Help), até que dá pra encarar o oceano na boa. Abraço.

Magrisso disse...

O título do blog encontrou seu significado-mór na noite de Copacabana.
Lá ou se está de costas pro mar, ou de costas pros travecos.

marcelo montenegro disse...

"Mesmo sem conhecer, já fazia parte da minha nostalgia". Bonito isso. E verdadeiro em se tratando do Rio. Abrazón nobre cavaleiro!

Nilo Oliveira disse...

O olho clínico de sempre, hein, meu velho? Escrevi tudo isto só pra encaixar esta frase que tu destacastes. Grande abraço.