terça-feira, 31 de agosto de 2010




Publico, abaixo, um texto inédito do meu amigo Marcelo Mirisola.

Especialista em cutucar feridas próprias e alheias, com um faro sem igual para engodos travestidos de jornalismo ou literatura, o Mirisola tem desagradado muita gente "boa" nos últimos tempos. Apesar de escrever semanalmente no site "Congresso em Foco" gozando de uma liberdade que, até então, não havia experimentado em nenhum outro veículo (segundo ele mesmo me disse quando esteve por aqui), parece que desta vez o pessoal achou algum problema nessa última crônica que a tornou impublicável. Leiam e tirem suas conclusões.

Na sequência do "proibidão", um brinde luxuoso: o seu "Monólogo da Velha Apresentadora", praticamente na íntegra.


Escárnio

Infelizmente não consegui publicar esse texto no Congresso em Foco, e quero agradecer ao Nilo pelo espaço cedido aqui, no De Costas pro Mar.

Aos fatos. A Folha de São Paulo cometeu uma grosseria contra a biografia de Alberto Guzik (ilustrada 21/8). Gustavo Fioratti foi o responsável por reverberar o jornalismo crasso e deletério de Mônica Bérgamo. Para quem não lembra, a coluna dessa senhora cobriu a estréia de minha peça e não me citou. Na oportunidade, reclamei para o Ombudsman, mandei carta para o Painel do Leitor, e não adiantou nada. Ficou por isso mesmo. O jornal simplesmente resolveu apagar o Monólogo da Velha Apresentadora, texto de minha autoria, da biografia de Alberto Guzik.

Como sou ingênuo voltei a reclamar. Não por mim, que estou acostumado a engolir esse tipo de veneno, mas pela memória de Alberto Guzik. Via Ombudsman, recebi a resposta de Sylvia Colombo, editora da Ilustrada.

Nada mais nada menos que uma confissão de arrogância e uma declaração de escárnio, aspas: “O dramaturgo Alberto Guzik deixou obra vasta e variada. Não foi possível incluir todos os trabalhos na arte raixo x – publicado junto à matéria.”

Notem que não foi o repórter Gustavo Fioratti quem respondeu, mas Mônica Bérgamo, editora da Ilustrada. Isso revela uma opção deliberada do jornal por aquilo que a Igreja Romana da idade média chamava de índex, censura mesmo. Mal comparando, já que estamos falando de métodos medievais de exclusão, seria como não incluir o papado na vida do cardeal Ratzinger. Dessa vez, porém, até a Ombudsman me deu razão (por email porque não se manifestou publicamente) e disse que era injustificável excluir o Monólogo da Velha Apresentadora da biografia de Guzik. Evoluímos?

Se a Folha de São Paulo optou pelo índex, claro que não. O fato é que ignorar essa peça é subestimar todo o percurso de Guzik como homem de teatro. Será que é tão difícil de entender? Uma trajetória que culminou nesse espetáculo, que o realizou como ator e fechou o ciclo de sua vida. Há testemunhas. Muitas.

Até quando a Folha de São Paulo, levada pelo senso medieval de retaliação de seus editores, vai cometer a grosseria de omitir o Monólogo da Velha da biografia de Guzik? O que eu poderia fazer para provar a existência da Velha Apresentadora para aqueles que acreditam no jornalismo praticado pela Folha de São Paulo?

Em primeiro lugar, creio que é conveniente publicar o texto aqui no blogue do Nilo. Depois, sugiro o blogue do próprio Guzik.

O material é farto. A partir da estréia da peça, no dia 11 de fevereiro e ao longo de 2009, Alberto Guzik documentou quase que diariamente sua experiência na pele da Velha Apresentadora. São toneladas de informações, verdadeiras aulas de dramaturgia em torno do assunto, comentários e participação dos amigos e espectadores de sua vida e obra. Alguns, nem tão próximos, se manifestaram e foram solidários comigo. Outros silenciam e fazem coro a omissão da Folha, como se aniquilassem parte da memória que Guzik confiou a eles. Eu sinceramente não queria estar no couro nem na alma dessas pessoas.

Nessa mensagem, postada em 14 de fevereiro de 2009, Guzik comenta a grosseria de Mônica Bergamo (que, repito, não foi corrigida e que – parece – fez escola na Folha):

o aborrecimento de mirisola

o grande mirisola escreveu pra se queixar: nas legendas das fotos na coluna da monica bérgamo, na sexta, que tanto me agradaram, em nenhum momento apareceu registrado que o "monólogo da velha apresentadora" é uma obra (genial, por sinal) de marcelo mirisola. ele disse que ficou parecendo que era texto de um fantasma, de um ectoplasma. total razão tem ele. foi uma deselegância dessa coluna em geral tão elegante, precisa e correta. não sei a que atribuir. mas mirisola se sentiu bem aborrecido. e está coberto de razão. sem sua obra nenhuma daquelas pessoas das fotos estaria lá. éissaí.

E põe deselegância nisso, Guzik. Reclamei e não adiantou nada. Depois que você morreu, o jornal voltou a ignorar não somente a mim, mas nossa Velha também, e o que era deselegância virou escárnio e desrespeito com sua memória. Como eu disse, são toneladas de informações.

Enfim. Se vocês acreditam que a história de um homem como Alberto Guzik é maior que a conveniência de uma meia dúzia de canalhas tacanhos que têm compromissos apenas com as próprias mesquinharias, então – repito – vale a pena dar uma conferida no blogue dele: http://os.dias.e.as.horas.zip.net/

Não obstante e apesar de todas as omissões e grosserias, tenho uma boa noticia. Em 2011, a Velha Apresentadora voltará aos palcos. Dessa vez, encarnada no incomparável Marcio Américo, ator e também autor de um livro que é uma obra-prima, Meninos de Kichute.

Na seqüência, para quem não acredita nos fatos e acha que o jornalismo da Folha é imparcial, faço questão de publicar o Monólogo da Velha Apresentadora, ainda sem a inclusão do personagem vivido por Chico Ribas, “o ponto”.

***

Monólogo da Velha Apresentadora

Febe Camacho no Camarim. Fuma compulsivamente, e bebe um copão de Gim. Transtornada com a notícia que acaba de receber

FEBE:

Filha da puta de negrinha! Tinha que ser seqüestrada... era o que me faltava! Onde é que vamos parar? Faz cinqüenta anos que entrei nessa merda de televisão. Nem na época da esculhambação do Jango aconteceu um absurdo desses! Antigamente as pessoas tinham talento! Era tudo precário, improvisado... mas tinham talento! Eu era jovem, bonita... recém-casada com aquele pústula do Silveira... Ah, J.J Silveira! O grande filho da puta... chantagista, escroque. Ele entrou nessa história por causa de uma troca de favores. Isso mesmo! Eu lembro: naquela época as pessoas trocavam favores, e obtinham algo em troca! Simples, simples ... Tudo bem, eram podres. Mas tinham uma ética, minha Nossa Senhora! Silveira mesmo, apesar de ser um canalha, nunca me faltou com o respeito. Lembro como se fosse hoje: na ocasião em que foi pego com a boca na botija, conseguiu manter a classe. Abafou o caso.

Naquela época, 1950, 51, no Rio de Janeiro, todas as senhoras e senhoritas que trabalhavam no meio teatral, tanto faz se fosse teatro sério ou rebolado, recebiam cartas e telefonemas de um sujeito muito polido e enigmático, que pedia en-ca-re-ci-da-men-te para que elas deixassem para ele, na portaria do teatro, sapatos velhos, de preferência de saltos bem altos e de cor marrom. Adivinha quem era o tarado?

Quem podia ser? Pego, Silveira teve de negociar, pois na época trabalhava no gabinete do dr. Lacerda. Fez tudo na surdina, e ficou por isso mesmo.

Ah, minha Santa Rita... tarado era tarado, ladrão roubava gente rica! Não acredito que seqüestraram minha empregada! Merda! Vai atrasar tudo... tive que cancelar a manicure para negociar a libertação da infeliz... (imita a empregada) “Ai, dona Febe eles me pegaram”. Que se foda, eu falei pros seqüestradores... quero que essa infeliz morra! Adiantou alguma coisa? Nada, os marginais disseram que iam ligar pra central de jornalismo da emissora, e que iam me denunciar por falta de sensibilidade social. Caralho! Sensibilidade social? Por causa dessa merda, chegamos onde chegamos. Na minha época tínhamos ética, talento. Quando entrevistei Cartola – se não me falha a memória... em 1972 – ele sabia que era um lavador de carros, sabia que era um ne-gro, e sabia principalmente qual era o lugar dele. Foi por isso que fez as músicas que fez... Hoje? A gente é obrigada a dar colher de chá para esses maloqueiros, tratá-los como se fossem gente – tem que dizer que a carapinha deles é linda – e o que ganhamos em troca? (Imita o seqüestrador) “A senhora não tem sensibilidade social”.

Ora, como não? Essa infeliz tem carteira assinada, décimo terceiro salário, come a mesma comida que eu como, viaja para Campos de Jordão no mesmo carro que a Tatá, minha Poodle... Viaja e não gasta um centavo do próprio bolso, a gente paga!, e trata como se fosse de casa , e o filho da puta vem me dizer que eu não tenho sensibilidade social? E o carnê das criancinhas Aidéticas? Não deixei de pagar uma prestação!... Também tem o carnê dos velhinhos cegos, ou é o carnê dos aleijados?

Nem sei, é aleijado, é cego, é carnê pra casa do câncer, prestação pra casa do caralho... o que mais que esses merdas querem? Vão tomar no cu!

A minha vida inteira foi feita de sacrifícios! Até hoje, depois de tudo e de desfrutar da amizade pessoal do doutor $$, o dono dessa birosca aqui, ainda tenho que me sacrificar! Será que esses merdas de seqüestradores sabem que meu salário foi reduzido pela me-ta-de por causa dessa maldita crise? Eu aceitei, não aceitei? Estou aqui, não estou? Se precisar eu rebolo até dentro do caixão! Como fiz a vida inteira!

Tive que rebolar muito pra chegar onde cheguei. Agüentei o nojento do Silveira por trinta anos, ele suas taras e suas amantes. As meninas de hoje falam em “orgasmos”... eu lembro que vomitava muito depois de ir pra cama com o Silveira. Não foi fácil, porra! Quando cheguei em São Paulo me humilhei feito uma cadela... Mas eu era uma cadela. E sabia disso, essa que é a diferença! Também fui empregadinha! Trabalhei de copeira na mansão dos Mamacazzo... O máximo que podia acontecer – e foi o que aconteceu, porra! – era o Conde querer me comer. E eu dei pra ele, e daí? Aquele homem era de uma generosidade ímpar! Me usou, usou sim, e recomendou para os amigos dele, passei de mão em mão até conhecer o Silveira. O canalha do J.J.Silveira. Mas eu sabia qual era o meu lugar, e tinha um vozeirão e um corpo lindos. Minha Nossa Senhora! Vá lá, eu era jovem, bonita... ainda não tinha essa cara de peixe retorcido por causa das dezessete plásticas que fiz em quarenta anos... ou vinte e sete plásticas em cinqüenta anos? Sei lá porra! Eu era bonita, mas tive que rebolar. Nunca desisti do meu sonho. Graças a generosidade do Conde, embarquei para o Rio de Janeiro. No começo, as coisas não iam nada bem pro meu lado... apesar dos contatos que o Conde havia me passado, minha carreira não deslanchava... Comi o pão que o diabo amassou... pensei até – juro por Deus! – em dormir com negros para pagar o aluguel. Eu era uma menina, uma caipira. Mas eu lutei, lutei até que consegui ir ao programa do Ary Barroso... e fiquei entre os três melhores! O Ary era foda, ou como diziam naquela época “criterioso”, ele não dava moleza. Não tinha esse nhenhenhen de hoje... em primeiro lugar, a música tinha letra, falava de auroras, luares, estrelas... e depois havia os interpretes, Chico Alves, Dalva de Oliveira, e tantos outros, e havia os tenores , as grandes orquestras, o Cassino da Quitandinha e seus bailes memoráveis, era um tempo em que as mulheres eram damas e os homens cavalheiros... e os corsos no carnaval ?... Ah, nunca vou me esquecer do carnaval de 1952: Os pierrôs morriam pelo amor das colombinas... (canta): “o jardineira por que estás tão triste/ mas o que foi que aconteceu/ foi a camélia que caiu do galho/,deu dois suspiros e depois morreu... foi naquele ano, 1952, que conheci o Ademar. Saudoso Ademar (suspira): Um gentleman! Ai!... e que rola...

Huummm Hummmm (pigarreia e toma um gole de Gim).

Hoje até o clima está de pernas para o ar! Naquela época tínhamos as quatro estações do ano bem definidas, verão, primavera, outono e inverno. Agora virou bagunça: Uma atochadinha, vem cá minha safadinha (canta um funk e faz o gesto de trazer o quadril para frente e para trás): Dá uma atochadinha/ vem cá minha safadinha...

O que aconteceu com o mundo? Alguns anos depois da guerra, 1949ou 50... fui para o teatro rebolado... aí sim, fiz nome. Construí um nome! Tive generais,ministros e senadores aos meus pés.

Os seqüestradores daquela infeliz deviam saber disso. Todo mundo devia saber, porra!

Fui Eu, Euzinha, quem ensinou as maiores sacanagens para Virginia, a preferida do Dr. Getúlio. Muito antes de as francesas trazerem as “novidades”, eu já fazia por instin... - digo talento.

Naquela época – tirando o Silveira, esse era tarado e não conta - ninguém se atrevia: as mocinhas ruborizavam, havia muito pudor e respeito. Verdade que os cavalheiros subiam em cima da gente feito animais. Mas nos tratavam como damas. Davam lá meia dúzia de bombadas, e se aliviavam. E era só.

A arte de La bouche, por exemplo. A despeitada da Virginia aprendeu comigo... fui eu, Febe Camacho, quem a ensinou a... mer-gu-lhar no ta-ba-co. (simula uma chupada para platéia).

Como a ensinei? Ora, ora. No meu tabaco é que não foi! Muito menos no sex shop (pronuncía “sex-shop” enojada). Tínhamos imaginação, tempo livre e os vegetais da Xepa. Além disso, não tínhamos escolha. Precisava mais?

Glamour? Claro que sim, o glamour da sobrevivência. Era assim: movimentos circulares e espiralados, desde o campinho (com o maior respeito), passando pela base até chegar a explosão final do cogumelo... tudo, tim-tim por tim-tim. Ela aprendeu tudo comigo. Virginia, a ingrata, a melhor aluna: tão aplicada como despeitada, aprendeu e virou professora.

Aprendeu a engolir tudo. Fisgou dr. Getúlio – e não queria dividir com ninguém, queria só para ela, egoísta.

Geralmente era nas terças-feiras. Um Cadillac preto estacionava na frente do apartamento do Flamengo, e levava a biscate. O chofer pessoal do dr. Getúlio vinha apanhá-la e seguiam direto para Poços de Caldas. Uma vez só participei de uma festinha no Palace Hotel. Virginia me levou – é claro – porque foi obrigada.

Se não fosse por isso, hoje, o petróleo não seria nosso. Mas essa é uma outra história, coisa minha e do doutor Euzébio Rocha, homem “idialista” mas completamente desleixado. Uma alma elevada!... ele sempre trazia consigo uma orquídea junto com um buquê de versos. Ele que me apresentou Neruda:

Vem com um homem

às costas,
vem com cem homens nos cabelos,
vem com mil homens entre o peito e os pés,
vem como um rio
cheio de afogados.


Um rio cheio de afogados... Ah!... Ninguém lembra do dr. Euzébio! Mas eu lembro... era um obcecado: doutor Getúlio o ouvia, e ele, dr. Euzébio... humm fazia o que eu queria debaixo dos lençóis. Nojento. Descuidava do asseio: um horror! Dos tímpanos e das narinas daquela alma elevada brotavam enormes tufos de pêlos grisalhos. Um horror! Ai, que horror.

Mas o Petróleo é nosso, é ou não é? Essa merda brotou dos meus pesadelos direto para os sonhos do dr. Euzébio. O líquido negro e viscoso começou a brotar daqui (apalpa o púbis com raiva) desse meu ventre seco que nunca verteu nada diferente de aborto, luxúria, interesse e desdita. Isso mesmo, eu tenho orgulho! Eu pari cadáveres! Pari camundongos! Pari duplas Sertanejas! Eu me fiz, e a história desse país escroto passa por aqui, e vocês querem saber de uma coisa? Cheira mal, muuuuuito mal.

Ah, se eu tivesse meia horinha com o presidente. Só meia horinha... Eu poderia ter sido a Evita que mudaria o rumo desse povo horroroso e banguela. Essa gente que infesta os pontos de ônibus! Essa gente que seqüestra e é seqüestrada?! Como pode? Seqüestraram minha empregada! O que eles são? Canibais?

Para mim sobraram os assessores, os cupinchas, os generais da banda, os debochados e os gordos metidos a conquistadores e piadistas, e eu os explorei até onde pude: foi por causa deles, e dos favores que me deviam (e do meu ta-len-to) que cheguei onde cheguei. Cambada de filhos da puta!

Mas nós tínhamos classe. Lá no Cassino da Urca, fiquei amiga da Elvira Pagã. Elvira era uma diva de verdade... Uma mulher de verdade. Nada a ver com essas mulheres de agora, que parecem catadas na xepa da feira: mulher-jaca, mulher-tomate, mulher-berinjela, mulher-fruta-do-conde! Que é isso? Vão se fuder! Mulheres éramos nós, mulher era Elvira. Ah, Elvira! Outros tempos. Numa ocasião, consegui o espartilho da vedete para o Silveira... inesquecível Elvira!... se não me engano, foi em troca de uma viagem para os States.

O tarado desfilava com o espartilho da Elvira na cobertura de Copacabana para políticos e cupinchas, todos tão nojentos ou mais nojentos que ele, mas era tudo no maior respeito! Quando a televisão chegou no Brasil, eu estava lá. Não ia adiantar nada o Silveira usar de influência... se eu não fosse uma estrela, a grande Febe Camacho! Naquela época era no fio de bigode! Homem era homem e mulher era mulher. Hoje é tudo viado e sapatão. Talento pra quê? Você quer fazer sucesso? Fácil, basta ser analfabeto, maltrapilho... mal ajambrado. Onde é que já se viu? Outro dia, quase que ponho um psicanalista pra correr... se não fosse o ponto! (ajeita o ponto na orelha). O sujeito vem aqui no meu programa, e diz que os adolescentes de hoje assumiram a bissexualidade sem os traumas na geração anterior... Pera lá, eu disse.

Como é que é, doutor? Que safadeza é essa? Não é que ele teve o topete de falar em “erotismo anal”!... No meu programa?! Quase ponho o sem-vergonha pra correr... mas o ponto, esse maldito ponto, me segurou... Tarados, cascateiros... Se o sem-vergonha do Silveira estivesse vivo... estaria se esbaldando... “erotismo anal”. Sei, sei.

Olha só as coisas que eu tenho que ouvir! Eu que já entrevistei reis, presidentes, estrelas de Hollywood. Todo mundo que era alguém no mundo vinha ao meu programa... Mas agora... Outro dia entrevistei uma menina que não sabia nem falar o próprio nome... devia ter o quê? No máximo 15 anos de idade, maaaagra. Uma caveirinha. Tive vontade de mandá-la para o hospital. Mas me obrigaram – o ponto, sempre o maldito ponto – me obrigou a dizer que ela era uma fofa! Uma caveira! No meu tempo, a sociedade apontava: olha lá o pederasta! E eles tinham vergonha, alguns até se matavam. Olha lá o mongolóide! E a família trancava no sótão. Hoje viraram atores de novela, tocam piano. Os pederastas vão pras ruas, e tem orgulho! Orgulho do quê? De dar o rabo? O Silveira tinha lá suas manias, até que gostava de um dedinho... mas era tudo entre quatro paredes, na surdina porra! No maior respeito! Isso mesmo! As pessoas se respeitavam, diziam bom-dia, boa-tarde e boa-noite... era tudo mais bonito. Tínhamos vergonha na cara! (Acende um cigarro no outro, dá uma longa tragada).... Ai de quem implicasse com cigarro! Fumar era fino, chique. Em Hollywood os galãs fumavam... Clark Gable fumava, Gary Cooper fumava, Cary Grant fumava ... e que homens!, machões de verdade! Homem era Homem, mulher era mulher. Hoje somos convidadas a chamar eles de afro-descendentes. E vocês viram onde um deles foi parar? (aponta para o norte e para o alto). Lá! Nunca imaginei que eu fosse viver pra ver isso. Sou de um tempo em que era cada macaco no seu galho, de um tempo em que filho da puta nenhum seqüestrava a empregada dos outros. Puta que o pariu! Me falta sensibilidade social?! Há!

PONTO (entrando):

Atenção, vamos gravar em três, dois, um já!

FEBE (tentando se refazer, abrindo um grande sorriso):

Boa noite queridas amigas e queridos amigos de todo o Brasil, sejam bem vindos ao Grande Show!...

10 comentários:

Nelson Alexandre disse...

Legal pra caralho! quando li o texto deu perfeitamente para criar a imagística da Febe Camacho com seu glamour de... Piracicaba? Araçatuba? Jaú? Se vier para o Paraná (Maringá) vou assistir. Abraço.

Luis Francisco E. Camargo disse...

Taí, Mirisola o porquê da censura! Seu texto é uma bomba na hipocrisia e narcisismo de uma "literatura politicamente correta" que desde algum tempo tem feito um pacto com o capitalismo (Paulo Coelho na Academia Brasileira é um exemplo). Você consegue separar política de arte, literatura de ideologia, coisa muito difícil desde que a literatura passou a ser refém da academia e de seus ideais sociais. Parabéns! E como diz aqui na ilha da fantasia: Toca-lhe o pau! Abraço. Chico.

Anônimo disse...

Marcelo,

Talvez a censura tenha vindo por causa da frase, com que vc se refere ao pessoal da Folha: " a conveniência de uma meia dúzia de canalhas tacanhos que têm compromissos apenas com as próprias mesquinharias". Vai vê que o pessoal do Congresso em foco é chegado deles.
Bjs,
Adriana.

Lalo Arias disse...

Nilo: já era hora da minha foto sair do topo do seu blog. Prefiro mil vezes a do Guzik - figura impagável, com quem tive a honra de conviver uns tantos anos no Jornal da Tarde nos idos dos anos 90. Ele deve estar num lugar bem melhor.

Marcelo: admiro sua persistência em combater a mesmice e a hipocrisia reinantes - sem falar na censura que se alastra da maneira mais hipócrita. Mas, peço, contenha-se e prepare-se, coisa muito pior ainda virá por aí.
Abraços aos dois.

Anônimo disse...

Marcelo,
Eu dei boas risadas e tive o prazer de ver o Guzik atuando na pele da velha. No mais, quem acredita na Folha? Grande beijo
Helen

Paulino P. Junior disse...

Grande ato em postar o Monólogo!
Gosto muito quando o Mirisola elege como narrador um escroque do catálogo da nossa "ilustre"(ou devo dizer "ilustrada"?) sociedade. (Leiam Memórias da Sauna Finladesa!)

Muryel De Zôppa disse...

vou me ater ao monólogo, bom! há meses querendo ler o troço e agora tá lido.
como disse Paulino, esse narrador é que dá gosto ao barato. saudações, Nilo.

Andre disse...

Nilo, meus parabéns por ter postado o texto e publicá-lo para todo mundo ver.

MM, quanto a essa história, essa briga com a Folha, é completamente inexplicável. Sinceramente, e dá medo pois a verdade fica distorcida e se perpetua uma mentira, no caso do Guzik, uma etapa da vida, um projeto maravilhoso. Entende?

Um abraço.
André

André Rodrigues disse...

Du caralho, mesmo.
Li e reli a peça.
E tá na hora de voltar com essa empreitada, Nilo.
Abraço,
André Rodrigues.

Nilo Oliveira disse...

valeu, andré. como expliquei dois posts acima, estava com dificuldades pra mexer nesta birosca.
pelo mesmo motivo, teu comentário só saiu agora.

abraço.