quarta-feira, 4 de novembro de 2009


ao meu pai.



deslizo da cama

desço à calçada

e só lá embaixo percebo

que esqueci os sapatos


as meias logo se encharcam

da chuva recente

e um sentimento sem nome

me obriga a continuar


visito mercados

botecos

lojas de conveniência

e logo saio

sem pedir nada


sinto a sujeira

grossa

de toda a cidade

endurecendo nas solas

as pontinhas geladas

do asfalto

ao atravessar cada rua

até que os cascalhos e a grama

de um parque da infância

me mostram que é outra cidade

que o tempo é outro

anterior a mim mesmo

e começo chorar

pela certeza de que vou encontrá-lo

a certeza absoluta

de que vou encontrá-lo

como no tempo

em que estava vivo.


6 comentários:

Guga disse...

Taí... Gostei !!!

Nilo Oliveira disse...

Como "gostaste"? Não tem nem mulher pelada! Abraço.

Lalo Arias disse...

Porra, Nilo, é sempre difícil poetar sobre o pai morto. Mas seu poema é fodido.
Tentei dois ou tres poemas com esse assunto para meu próximo livro. Mas sempre acho que fica um nó demasiadamente apertado e muitas palavras faltando...

Nilo Oliveira disse...

Assuntos como este a gente tem que tratar de forma indireta. Por si mesmo é uma grande lacuna, sem remédio possível. Uma forma de abordá-la seria, por exemplo, falar das próprias meias...

Lalo Arias disse...

Tomei a liberdade de postar este teu poema no meu blog, é claro que na coluna da esquerda, aquela dos mais e melhores blues.
grande abraço

Nilo Oliveira disse...

Fico muito honrado. Abraço.