sábado, 28 de novembro de 2009


Poema Encontrado Dentro de uma Garrafa


Depois de muito tempo, entrei no velho bar.
Cada vez mais esta cidade me expulsa.
Fui embora cedo
expulso pelo parto reverso
- a bolsa pra lá de estourada -
dos fetos que se espremiam lá dentro.

Quando saí
a moça da portaria me disse: “Já vais embora?
Ainda nem ficaste chato!”
Podia ter respondido: “Nunca sou chato
apenas quando bebo
fico fora do teu alcance
e é por isto que bebo”.

A moça da portaria tem um sorriso bonito.
As moças são cada vez mais bonitas
a medida em que a gente envelhece.
O problema é que nesta cidade elas se repetem
em cada idade
como se fossem a mesma.

A cidade me expulsa
como uma onda
expulsa um destroço.

Este mar de província
raso
previsível
na calmaria ou na fúria.

(Por um motivo obscuro
todo homem procura o milagre.
E pelo mesmo mistério
um dia desiste de procurá-lo.)

Não há mais aventura possível
em frente a este mar.

4 comentários:

Nina disse...

procurar o milagre faz parte,
desistir de procurá-lo também...
eu diria, ainda mais

que bonito

Nilo Oliveira disse...

Acho qualquer desistência uma coisa muito nobre, se não for por covardia. Abraço.

Lalo Arias disse...

Todo Homem procura um milagre, Nilo.
Mesmo de frente, ou de costas, pro Mar.
Seria muito pedir suas palavras no prefácio do meu próximo livro?
Grande abraço

Anônimo disse...

Eu também mandei algumas garrafas ao mar com poemas lá dentro. Senti.me tão leve depois de o fazer!
Gostaria muito de saber quem o teria encontrado.

Estava a pensar em mandar uma garrafa com um papel com o meu mail ou um contacto e quem apanhasse escrevia o seu contacto no papel e voltava a lançar ao mar. E assim todas as pessoas que encontrassem a garrafa conheciam-se á sorte! ;)