segunda-feira, 23 de novembro de 2009



Diálogos Libertinos com a Senhora H.

Todo mundo que ia visitá-la na Casa do Sol - o sítio em que morava sozinha, entre livros e cachorros, perto de Campinas - saía de lá com uma história. Com quase oitenta anos, já apitando na curva, não tinha mais saco pra medir palavras. O meu amigo Ricardo Lísias esteve lá e me contou que, ao sair, pediu pra que ela autografasse um livro:

- E o que escrevo? - ela perguntou.

- Escreve "para o Ricardo Lísias, com amor".

Virando-se pra ele, de olhos arregalados mas com um sorriso sacana, ela disse:

- Mas, meu filho, assim vão pensar que estamos fodendo!

Em outra ocasião, recebeu a visita de umas alunas do curso de letras da PUC. Tinha acabado de lançar "O Caderno Rosa de Lori Lamby", e o teor "pornográfico" do livro havia escandalizado muitos acadêmicos da época. Uma das alunas, visivelmente constrangida, perguntou:

- Dona Hilda, a senhora não tem medo que confundam sua obra com a vida real?

- Querida - respondeu, bebericando uma xícara de chá - no meu tempo eu era muito puta...

Já no fim da vida, um livro seu foi premiado com uma viagem a Paris. Recusou a viagem e pediu sua parte em dinheiro, com um argumento irrefutável: "Não posso beber, não posso passear, não posso trepar. O que é que eu vou fazer em Paris?"

Muito bonita na juventude - e muito "avançada" para o seu tempo - namorou caras como Dean Martin e Vinícius de Moraes. Quando numa entrevista perguntaram, em tom de fofoca, sobre seu caso com Vinícius, encerrou o assunto dizendo:

- Mas naquela época quem o Vinícius não comeu?

Hilda Hilst não era apenas isso. Era muito mais. Sem dúvida, uma das maiores escritoras que o Brasil já teve. Sempre recorro a ela quando preciso tirar o chão das coisas que escrevo. Mas como este blog tem uma pequena queda pela sacanagem, optei por apresentar apenas este lado. Na minha opinião, tão importante quanto todos os outros.


"Cartas de um Sedutor"

Cordélia, irmã, sai do teu claustro.
O campo envelhece vacas e mulheres.
Alimenta de novo teus buracos
Com mastruços gentis, nervosas picas
Ou se conas quiseres para tua língua
Consigo-te às dezenas: conas maduras
Conas juvenis, conas purpúreas
Para teus represados sentimentos vis.

Foste antanho putíssima, celebérrima.
Talvez senhora por alguns parcos segundos.
Mas agora me vejo furibundo pois suspeito
Que fisgaste o paterno caralho
Nos teus buracos fundos. Traidora. Megera.
Amada Musa ainda. Hei de te arrebentar as rebembelas.

Retornarás mui breve à vida impura
Pois se há no mundo picas e querelas
A respeito de tudo, ah, Palomita, vem...
Aqui te espera um valhacouto imundo.


*

"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."

* * * * * *

E o Mirisola volta a exorcisar - segundo ele pela última vez - os pastores meganhas. Nunca é demais falar contra este povo. Para ler a crônica, clique aqui.

4 comentários:

gilbert disse...

estou lendo o seu PORNOGRAFIA PESSOAL. junto com o Mirisola, leituras que não consigo largar. e não consigo parar de escrever. se puder, precisaria de umas dicas sobre o que venho produzindo. pode falar o que quiser, é disso que preciso. lá no narrarte.zip.net. abraço.

Nilo Oliveira disse...

Legal, Gilbert, que tenhas encontrado o livro e que, de alguma forma, ele esteja te ajudando. Quanto as dicas, sei lá: não me considero muito apto pra dar palpites no trabalho alheio... Só posso dizer pra continuares lendo, escrevendo e reescrevendo. É o único caminho que eu conheço.

Abraço.

Nina disse...

puxa, eu conheço tão pouco dessa mulher, mas gosto tanto.
Esse poema escolhido por voce.. aflição de ser eu e não ser outra, é, coincidentemente o que eu mais gosto.

Nilo Oliveira disse...

Escolhi o segundo poema de modo aleatório, só pra contrabalançar com o escracho do primeiro. Isto só é possível de fazer com poucos escritores: abrir qualquer livro, em qualquer página, e se deparar com uma coisa bonita como esta. Abraço.