segunda-feira, 6 de junho de 2011

J. C. Onetti, expressando num gesto o que achava
de dar entrevistas

Santa Maria de Onetti




"Não era a felicidade, era o menor esforço."


"... desde que renuncie seu uso, posso fazer a felicidade dos outros."


*
Essas duas frases estão no mesmo livro que o texto aí ao lado, logo abaixo dos "Arquivos do Blog". "Deixemos Falar o Vento" é o nome dele e, na minha opinião - além dos contos - é a porta de entrada pra obra do Onetti. Só depois, pra entender um pouco melhor o que se passa, aconselharia tomar fôlego, arrumar um arpão confiável e só então mergulhar em "A Vida Breve."


Não foram poucas as vezes que ouvi falar que Onetti é "difícil" ou simplesmente "chato". Lembro que li num blogue - acho que de uma dessas moças do Rio de Janeiro ou de São Paulo, as quais, de resto, escrevem muito bem - uma postagem afirmando que tinha achado Onetti "um porre" e, pra desopilar, foi ler Faulkner.


Se ela tivesse dito que largou Onetti pra ler Hemingway ou Shepard eu até entenderia. Mas Faulkner?


Talvez essa incompreensão - ou essa escolha arbitrária entre dois autores que, de resto, têm tanto em comum - tenha acontecido apenas por um  choque de paisagens.


"Santa Maria", a cidade fictícia onde se passam a maior parte dos livros do escritor uruguaio - recurso narrativo assumidamente inspirado em Faulkner - é uma cidade com paisagens e habitantes muito próximos aos do extremo sul do Brasil. E pra mim, que sou de lá , a memória afetiva desses lugares - além, é claro, da qualidade desconcertante do texto - foi importante pra que Onetti me ganhasse enquanto leitor. 


Essa pronta identificação, imagino, deve ser mais complicada pra uma guria (ou guri) que goste de ler e nasceu e foi criado em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em qualquer outro estado mais ao norte. E a escolha entre os dois escritores talvez se deva, entre outras coisas, a um fator que, confesso, me deixa meio constrangido: a paisagem, os costumes e o modo de falar do sul dos Estados Unidos estão bem mais próximos - são mais "familiares", pra dizer de outro jeito - a esses leitores que as do sul do seu próprio país. Daí que basta Faulkner citar nos seus livros uma casa rural da época da escravidão e a imagem, assim como todo o "clima" do lugar - via cinema, música etc. -, já está lá, faz parte da memória afetiva desses leitores, liberando seu entendimento pra intrincada poesia do texto.


Mas é apenas um palpite (e só deve valer pra esse caso). Encontrar um autor respeita as idiossincrasias de qualquer encontro: as vezes  acontece, outras não acontece, e por mais que se arrume motivos racionais pra justificar essa simpatia ou rejeição, sempre haverá margens para o mistério. Justamente o mistério que obriga os "aficcionados" a continuarem a fuçar prateleiras de sebos e livrarias e insistir em livros considerados "difíceis", como um solitário a perigo procura outra solidão disponível pelos bares noturnos ou pelos sites de "relacionamento". 


Não vou negar que levei algum tempo até conseguir me orientar pela Santa Maria de Onetti. Mas quando consegui, foi quase uma felicidade (essa palavra de uso restrito, utilizada pelo escritor uruguaio sempre carregada de cinismo) - a ponto de, às vezes, retornar à companhia dos seus habitantes como quem volta a uma cidade real, onde - admito - nunca cheguei a ser exatamente feliz, mas, apesar dos pesares, sempre me fez sentir estranhamente em casa. 


Talvez porque o lugar de todo escritor seja mesmo o exílio. Ou algum outro lugar do qual só  restaram escombros, ruínas, uma vaga, escorregadia lembrança e, sem dar o braço a torcer diante do reincidente fracasso, procuramos restaurar através de palavras, tanto faz se nossas ou alheias. É mais ou menos o que diz o próprio Onetti, quando  questionado sobre a invenção de Santa Maria: "Eu vivi muitos anos em Buenos aires, e de alguma maneira a experiência de Buenos Aires está presente na minha obra; mas muito mais que Buenos Aires, está presente Montevidéu, a melancolia de Montevidéu. Por isso fabriquei Santa Maria: fruto da nostalgia da minha cidade. Fora dos meus livros Santa Maria não existe. Se existisse, com certeza eu faria lá a mesma coisa que faço hoje. Naturalmente, inventaria uma cidade chamada Montevidéu."

3 comentários:

Paulino Júnior disse...

É que o Onetti seleciona os leitores, Nilo. O lance tá em saber atravessar a escrita no começo, sem pressa pela "historinha".

Nilo Oliveira disse...

Um filho da puta esse gringo. O negócio dele é escrever, e não ter leitores.

A. Marques-Rodrigues disse...

Onetti é fantástico.