terça-feira, 3 de maio de 2011



Lugar Comum


Quando Elvis morreu (se é que ele morreu) era hora do recreio. Foi pela Tia Jurema, a merendeira da escola, que fiquei sabendo da sua morte. “Aquele rosto!... Aquela voz!” – dizia Tia Jurema, desconsolada. Elvis morreu em agosto. Em maio eu tinha completado cinco anos. É uma das minhas recordações mais antigas. A memória dessa época tem uma tonalidade fria e azulada, como se refletida numa lâmina. Dias depois vi o Roberto Carlos na tv e levei um susto: pensava que Elvis e Roberto fossem a mesma pessoa... Só não me perguntem porque.

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A primeira vez que escutei “Imagine” foi em 1981. Devo ter escutado outras vezes, mas esta é a primeira que recordo. Morava em Uruguaiana e a música foi usada como trilha sonora de uma campanha contra a guerra das Malvinas, que estava pra estourar. A Argentina ficava ali, depois da ponte. Perguntei que símbolo era aquele que aparecia durante a música e alguém me disse que era o símbolo da paz. Segundo fontes oficiais, morreram 1.225 soldados naquela guerra: 1.000 argentinos e 225 ingleses. Do outro lado da ponte, os argentinos estavam agitados, e discutiam por qualquer coisa.  Quando a poeira baixou, eles se calaram e fomos instruídos a não tocar no assunto com  nenhum hermano. Tempos depois, descobri a música da propaganda entre os discos do meu pai. Ao escutá-la, me dava uma espécie de tristeza boa. Só lá pela milésima audição, fui ligar aquele cara de óculos na capa do disco com um tiro que, dois anos antes, tinha feito minha mãe chorar. Daí por diante, quando escutava a música, a tristeza deixou de ser boa pra se tornar só tristeza.

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O ano de 82 foi complicado. Em janeiro, estava dentro de uma piscina de lona – daquelas azuis, pintada com peixes e cavalos marinhos – quando ouvi um grito. Tinham posto na minha cabeça que, na ausência do meu pai, eu era o "homem da casa”. Entrei correndo pela cozinha e, molhado, escorreguei e bati a cabeça. Deitado no chão, ouvi o telefone; pela conversa, soube que alguém tinha morrido. “O Bêbado e o Equilibrista” tocando na televisão a todo volume me fez adivinhar quem era. Pelo luto musical que se seguiu, até hoje sei décor quase todas as canções da Elis Regina. Em 5 de julho daquele mesmo ano, me tranquei no banheiro e chorei, sentado na privada. A imagem que ficou foram os braços do Falcão, cheios de veias azuladas, vibrando de um jeito que eu nunca mais vi ninguém vibrar por causa de um gol.

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Por ocasião da morte do Tancredo, eu estava no banheiro, tocando bronha. A imagem do Sarney encagaçado – sua mão tremia ao prestar o juramento – foi tudo o que sobrou desse momento histórico.

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“Morreu Airton Senna da Silva... Morreu Airton Senna da Silva...” – repetia o Reginaldo Leme enquanto no carro, repetidas vezes, a cabeça do Senna dava o último tranco dentro do capacete. Deitado na cama, bocejei, mudei de estação e continuei vendo o Show de Calouros.

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Na manhã do dia 11 de setembro de 2001, estava cortando os cabelos no Salão do seu Chia, na estação rodoviária de Florianópolis, quando um comerciante vizinho entrou gritando: “Muda de canal que explodiu a porra toda!” Na Tv, uma grossa coluna de fumaça subia de uma das torres, enquanto o locutor falava em “grave acidente”, e outro comentarista se mostrava indignado pela barbeiragem do piloto. Então o mundo inteiro viu, em tempo real, o segundo avião se aproximar e degolar a outra torre numa sequência de explosões encadeadas.

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“Parece que foi ontem”: quanto mais velho a gente vai ficando, mais repete (e com maior perplexidade) este lugar comum. A juventude pode ser definida como a época em que – abençoados com a dose de ignorância necessária pra nutrir todo tipo de esperança – raramente pensamos no tempo. Só tarde demais nos damos conta que ele sempre esteve ali, paciente e discreto como um sabotador profissional, a manipular seus instrumentos cirúrgicos. Então de repente ele parece perder a elegância: acelera todos os seus cronômetros, troca o bisturi pela gadanha e vai cuidar de desavisados mais recentes. É quando percebemos que tanto a esperança quanto o “parece que foi ontem” não passam de dois efeitos diferentes da mesma anestesia. O tempo não brinca em serviço.

2 comentários:

Luana Vignon disse...

porra, heim, Nilo...

Nilo Oliveira disse...

Ficou bonzinho, né? Abraço e parabéns pelo lançamento.