quinta-feira, 19 de maio de 2011



Manuel Bandeira: "Teresa"


A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna


Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)


Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.


*  *  *

Os dois últimos versos deste poema são de matar. Do livro do Gênesis, capítulo I, versículos 1-3: "No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia, e as trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre as águas. Então Deus disse: Faça-se a luz. E a luz foi feita."

Esse momento: ao perceber que havia se apaixonado por uma mulher que, a princípio, não tinha achado bonita, foi como se o mundo voltasse à estaca zero, pra logo depois ser recriado.

Pra quem não costuma enxergar apenas com os olhos, de vez em quando acontece. E não só no que diz respeito às mulheres.


P.S.: Acho uma merda isso de ficar explicando poema. Coisa de professor de cursinho. Mas desta vez não me segurei. Talvez porque ache isso tão bonito, que queria "participar" da coisa de alguma forma. É o que, no fundo, todo crítico faz. A diferença é que eu assumo. O que não chega a ser uma rima. Muito menos, uma solução.



3 comentários:

Luana Vignon disse...

muito bonito. o poema e a explicação.
beijo.

Nilo Oliveira disse...

Beijo.

Anônimo disse...

Adorei a explicação e o poema, me ajudou bastante a compreender, obrigada!